segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Controle

Trim..... Trim..... Trim..... Trim..... Trim..... TIC!
“Oi, aqui é o Arthur. No momento não posso atender, mas deixe seu recado que depois retornarei.Obrigado”. TUM!
“Arthur? Você está ae? Atenda, precisamos conversar. Queria lhe pedir desculpa por mandar você se fuder. Eu não sei o que deu em mim, estava nervosa e você apareceu numa hora errada. Aquele cara com quem você me viu na cama era o Daniel. Estávamos saindo há um tempo e acabei me apaixonado. Não sabia como lhe contar isso, eu errei. Percebi que ele não significa nada para mim. As coisas acontecem tão de repente em nossas vidas que não percebemos, e acabamos cometendo erros... Desculpa. Estarei esperando você para conversarmos melhor”. TUM!

Ao terminar a gravação, o silêncio se instalou naquela sala. Era um silêncio presencial, como se alguém tivesse observando aquele momento. Pela mesa havia cigarros amassados, cinzas espalhadas, vodca derramada e um cheiro insuportável de vômito. Arthur estava jogado no chão sobre o tapete segurando um frasco de remédio. Ao seu lado uma folha de papel amarela com a qual interagiu pela última vez.


Clique para ver a foto ampliada: Pseudónimo

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Vai a onda Vem a nuvem


Senti a água gelada do mar tocar-me os pés enquanto ficava observando-os a afundarem na areia, assim como também meu relacionamento com Lilianne estava afundando. O vento batia-me o rosto e me dava vontade de sair voando junto com ele. Segurava o celular enquanto Lilianne estava no outro lado da linha esperando minha resposta. Não queria dizer nada, se possível, queria ficar calado pelo resto do dia ao invés de dizer que concordava com o fim de nosso relacionamento. Era tudo estranho, era tudo diferente. Pensar que passei doze anos dividindo sentimentos com a pessoa que mais amei na vida, que ainda amo. Não poderia deixar que ela se fosse assim para Portugal e acabar de vez com nossos sonhos. Iríamos ficar distantes, mas sei lá... Poderíamos manter contato, escrever cartas, mandar emails. Estava me sentido muito mal. O celular escorregou da minha mão e caiu na água.

Doze anos não são doze dias. Meus pensamentos começavam a rodear minha mente. Pensava que talvez Lilianne tivesse conhecido alguém ou dado uma chance à Bárbara. Esses pensamentos me incomodavam e aumentavam meu desanimo. Sentei na areia e deitei. Talvez uma onda forte batesse em mim e me levasse para o fundo do mar junto com os peixes. Ouvia o som do mar e o das gaivotas riscando o céu. Pude sentir o peso do meu corpo sobre a areia e a pulsação do meu coração que parecia rasgar meu peito. Não sei, mas tudo que queria era abraçar Lilianne e fazer com que ela desistisse da idéia de terminar nosso relacionamento. Sua imagem me vinha à mente, seus olhos castanhos claro, seus cabelos cacheados, sua pele macia e doce. Eu realmente estava morrendo sem poder dar o último suspiro.

A tarde estava nublada e a cor do céu era linda. Um escuro denso se cobria sobre mim. Talvez Lilianne estivesse infeliz em seu quarto com um choro seco e silencioso abraçada ao travesseiro, usando uma camisola de seda branca com estampas florais e apertando bem forte o celular em sua mão esperando que eu retornasse a ligação. Iria sentir falta de seus beijos, de seu sorriso, do seu olhar e dos dias nublados de novembro que comemorávamos nossa paixão. Os galhos das árvores balançam soltando suas folhas que caiem sobre a areia. Tudo se perde, tudo se vai; como a onda do mar indo e vindo. A nuvem escura chegou, e trouxe junto com ela o vento que me arrasta para o mar para que eu possa encontrar o que ele levou.

Dedicado à Ana Carolina Duarte

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Wood, o pássaro que não voava

Em homenagem a todas as crianças com suas imaginações totalmente inocentes. Sinto falta disso.

Bernard Freire

Muitos dizem que a maior liberdade está nas asas de um pássaro. Outros dizem que queriam ser esse pássaro. Mas somente poucos, bem poucos, dizem: “Queria voar tão alto quanto um pássaro sem asas.”

A história começa exatamente no ano de 1969, quando um pássaro não consiga voar porque não tinha asas. O pequeno e aflito pássaro se chamava Wood, e vivia constrangido quando ficava a observar o bando seguindo rumo para o outro lado do horizonte, enquanto ele ficava sobre as plantas que brotavam da terra. Wood ficava caminhado sozinho pelo imenso mato de erva que ligava a floresta até a cidade. Nada era perfeito e os seus dias eram sempre a mesma coisa. Wood sentia um grande vazio por não ser que nem os outros pássaros, mas esse vazio nunca o deixava triste, pois Wood era forte de pensamento e sabia sonhar com coisas boas. Certa manhã, Wood acordou e percebeu que o céu estava vazio, sem nenhum pássaro voando. Não ouvia nenhuma canção pelas árvores da floresta e nenhum som de bater de asas. O silêncio o acompanhava em sua caminhada pela floresta. Wood passou a ter um pouco de medo por se sentir tão sozinho; caminhava sem encontrar nenhum movimento, mas mesmo assim continuou caminhando, caminhando, caminhando... Estava ficando escuro e frio, o vento batia nos galhos que faziam as folhas caírem, o medo parecia crescer. De longe Wood observa uma luz intensa que brilhava cada vez mais quando se aproximava. A luz intensa era um grande cogumelo colorido. Uma luz irradiante que faziam os seus olhos girarem com o pensamento. Wood, totalmente inocente, observava o grande cogumelo e ficou impressionando com aquelas cores brilhando no escuro. “Olá”, disse o cogumelo colorido. Wood se assustou e correu para trás de uma planta. “Olá”, tornou a dizer o cogumelo colorido, “não tenha medo, não irei lhe fazer nada”. Wood saiu calmamente de trás da planta e ficou uns dez segundo calado antes de falar: “você tem vida”. “Claro que tenho”, responde o cogumelo colorido, “sou de uma espécie rara de cogumelo que só existe um em cada país. Mas me fala, como você se chama e de onde veio?”. “Me chamo Wood, moro aqui na floresta mas nunca havia andado por essa área”. “Você estar perdido?”, perguntou o cogumelo colorido. “Acho que sim. Não consigo encontrar os outros pássaros aqui na floresta, o silêncio abita em todas as partes”. O grande cogumelo colorido começa a gargalhar, enquanto Wood fica sem entender. “Você não está sabendo que essa área será palco de uma grande guerra? Uma guerra onde os humanos não pensam nas vidas por estarem obcecados pelo poder. Caro Wood, brevemente parte disso que você está vendo será destruído, por isso os pássaros voaram para bem longe”. Wood senti o vazio lhe cobrir novamente. “E o que devo fazer senhor cogumelo?”. “Voe para bem longe também”. “Mas não tenho assas”. O grande cogumelo colorido observa o aflito Wood e lhe responde: “siga o seu coração, caminhe na direção da liberdade; todos estão seguindo esse rumo, você saberá o que fazer. Só não fique no Vietnã”. Wood nunca havia saído da floresta, mas achou que já estava na hora de procurar novos horizontes. “Bom, então muito obrigado senhor cogumelo, vou seguir em frente”. “Boa sorte Wood, e siga as cores”.

Agora Wood abraça o mundo e segue sua imaginação. Seus pensamentos de infância lhe acompanham durante o longo caminho: o alimento mastigado da boca que o alimentava, as penas aconchegantes que o mantinha longe do frio, os olhos brilhantes que o faziam ter forças, e a canção que escutava todas as manhãs. Os adultos também são órfãos, órfãos assustados. Sua jornada é arriscada e divertida, seus movimentos: atrapalhados.Tudo estava mudando. Um pássaro sozinho a caminho de... “não se sabe o lugar”. Wood sentia frio, muito frio, e também fome. Suas perninhas davam passos cada vez mais ligeiros. Wood já cansado, senta debaixo de uma linda flor, encosta sua cabeça e senti o balançar dela. “Estou cansado”, suspira Wood. Ele começa a fechar os olhos lentamente e cochila por um tempo. Uma respiração leve e calma como à de um bebê. Sonho. Sonho que é interrompido com um barulho de bater de asas. Uma linda Borboleta pousa na flor. Wood acorda, olha para cima, e vê uma linda beleza que lhe faz lembrar-se de sua mãe. “Olá dona borboleta, você pode me ajudar?”, pergunta Wood. A borboleta responde: “dona?”, deixando Wood envergonhado. “Desculpe, é que estou seguindo as cores e não sei bem por onde ir”. A borboleta olha para os olhos aflitos de Wood, e observa um grande cansaço. “O meu nome é borboleta do amor, e o seu nome pequeno pássaro?”. “Wood”. “Você também está indo para o lugar imaginário?”, pergunta a borboleta do amor. “Sim”, responde Wood. “Bom, você pode vim comigo se quiser, também estou indo, me perdi das minhas amigas borboletas”. Wood senti-se surpreso. “Posso ir mesmo, não vou lhe atrapalhar”. “Claro que não, fazemos companhia um para o outro”. “Legal, então vamos!”. “Então venha, estou seguindo um caminho diferente: o caminho das flores”. Wood não se importava, queria chegar logo ao lugar imaginário. Poderia demorar um pouco, até porque Wood estava acompanhado de uma linda borboleta, uma beleza incomparável. Linda são as borboletas, com suas cores, suavidades, movimentos e seu brilho diante das flores. Durante o caminho a borboleta do amor e o pequeno Wood pegavam alguns frutos e conversavam. Falavam sobre amor, diferenças, sonhos... sobre a vida. Uma viagem divertida. Uma viagem que as crianças fazem e que os adultos não entendem. Afinal, o mundo delas é diferente.

PEACE (PAZ) anunciava uma imensa faixa pendura na árvore. Ao se aproximar do mundo imaginário, Wood sentia-se bem-aventurado, uma energia dentro de si. Energia interrompida por um soldado gafanhoto que buscava jovens recrutas para lutarem pelo seu país. “Aonde pensa que está indo pobre pássaro”, perguntou o soldado gafanhoto, “temos trabalho a fazer. O governo não ficará nada feliz de saber que um pássaro fracote deixará sua honrar para se juntar aos negros, as mulheres, a essa tal de democracia e liberdade”. Wood estava assustado, não entendia aquele soldado gafanhoto. ”Não quero ter honrar”, disse Wood, “quero apenas viver, sentir amor, a natureza e aprender a voar”. O soldado gafanhoto percebeu que Wood era forte de coração e deixou-o ir embora. O mundo imaginário agora era totalmente de Wood. As emoções, a música, as pessoas, as cores, o vento. Era tudo diferente, era tudo estranho. Wood se encontrou com a natureza e com o som que vinha dos solos de guitarra. Wood estava muito feliz, mas faltava alguma coisa que nunca conseguiu realizar. Voar parecia uma coisa impossível para um pássaro sem asas, mas naquele momento Wood encontrou o que jamais havia visto antes: sua liberdade. Agora Wood tinha asas. Tinha o mundo psicodélico que amava. Wood que nunca tinha voado, voou pela primeira vez. Voou tão alto, mais tão alto, que percebeu que sua mãe estava perto e sentiu seu abraço. Wood voltou a ser a criança que voava com as asas de sua mãe.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Flores Marginalizadas

*Para as mulheres

Queria escrever no corpo das lindas flores que me cegam
Sentir seu perfume e ter orgasmo até ficar seco.
Então, cobrirei de beijos as pétalas e sua cor viva me trarar uma vontade banal,
Para recomeçar o processo novamente: escrever-sentir-gozar-beijar.

Bernard Freire

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sanguesuga da mente que rodeia as idéias. Céu branco e uma linda branca passando. Tempo. Sinal verde, amarelo, vermelho, luzes vermelhas... passos. Um ponto verde caminhando e os olhos observando-o. Abunda passou. Abunda. Vozes soltas, sol raiando, mangueira impatando. Uma tarde, no ar, nos prédios.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Palavras Soltas

Minha linda

Sistema

Poesias rasgadas

Passarinhos

Noites nos bares: noites perdidas

Poemas banais *_*sozinhos insanos passageiros...

*..12345........

Frio solidão palavras desenhadas :) :(

Livros jogados bebidas luz negra


AH AH AH!!

Pensamentos, delírios, você (='.'=)

escrevi uma coisa

Medo alucinações música gritos

Achava que você não existia amor platônico?!


Imaginações

/////s2*===*
@ _)(_ '''''#
.....><..... #

Era pra ser uma história, apenas uma história

Não (NO), Sim (YES), Eu acho (I?)

Acho acho um fim um final de tudo (?)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Redoma de vidro

"Tão estranho carregar uma vida inteira no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros." - Caio Fernando Abreu

Seco.Vazio. Ausente. Silêncio. Partidas. Vozes. Alucinações. Pensamentos. Palavras.

Isto foi o que sobrou depois que percebi que tudo não passava de uma ilusão. Tudo tinha seu tempo. As horas eram compridas e a leveza do ar parecia está dentro de mim. Escolho entre tantas palavras uma forma de decifrar o que acontece durante as noites, quando as luzes se apagam. Sufoco-me com o travesseiro, contado os segundos que deixam esse ar (que percorre por todo mundo) ficar preso dentro de mim, para que eu sinta como é estar livre. Mas isso não acontece. Acabo ficando sem fôlego e me engano novamente. Acho que quando Caio Fernando Abreu escreveu “Os Dragões Não Conhecem o Paraíso” decifrou exatamente o que sentimos quando nos ausentamos do mundo, das pessoas e de nossa personalidade. De quando temos que nos ausentar da palavra “amor” para recompor nossos sentimos e ter forças novamente para continuar vagando nessa palavra. SsSsSsSsSsSsSsSs... Ouço o som do vento que entra pela janela e, sem que eu permita, se alojar no vazio do quarto para me acompanhar. Trocamos imaginações para que o sorriso passageiro apareça. Um breve sentimento de descanso me envolve antes de ir embora. A magia do meu inconsciente. E quando passa, fico pelo chão desse quarto sobre o silêncio, ausência, ficção, medo e uma ‘luz negra’. Essa luz negra que me mostra miragens de uma solidão. A luz negra da canção de Nara Leão que me acolhe na melodia. Pareço estar sonhado.

Sinto o peso do meu corpo esticado no chão gelado desse quarto. Solidão. Não queria expressar essa palavra enquanto desenvolvo alucinações. Ela está presente em cada indivíduo sonhador. Procuro me ater nas palavras de solidão deixadas pelos tristes humanos que caminharam sobre a terra. Nietzshe sentia um grande amor dentro de si quando se alojava e mantinha sua mente em contato com o silêncio. Ele particularmente não tinha vida, era um filósofo amargurado que escrevia para se recompor de suas dores existenciais. Esse talvez seja o medo das pessoas que procuram a palavra “F”. Parece que as lágrimas escorrem de um amor platônico e caem lentamente sobre as páginas dos livros de poesias banais. A respiração intensa deixa os membros superiores exausto de produzirem palavras marginalizadas. Agora Fyodor Dostoyevskiy interage com esses olhos de insônia. Grande parte de suas imaginações eram referente aos outros que encontravam abrigo num isolamento. “As crianças são assustadas e infelizes, mas conseguem caminhar sem medo”. O tempo está se alongando-esgotando-parando. Logo terei que me ausentar das melodias, das letras, e me abrigar em outros ambientes repletos de ilusões. Quero me embriagar de álcool para me misturar aos demais, sentir a fumaça e estabelecer o contato com as bocas de pecados proibidos. Te procurar no caminho que me deixasses sozinho. Viajando nas poesias banais, nas lágrimas e dores profundas e sentir-me: Seco.Vazio. Ausente. Silêncio. Partidas. Vozes. Alucinações. Pensamentos. Palavras. E encontrar minha redoma de vidro.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Sobre o amor platônico - Capítulo VI

Emanuel:

Olho para os olhos lindos de Suzane, e para a beleza de sua cor. Seus cabelos cacheados e seu rosto suave. A multidão ao redor parecia não existir. Estou tonto e com algo preso na garganta. Sinto socos no estômago e vozes na minha imaginação. Parece que tudo está sumindo.

Como explicar para Suzane sobre o meu amor platônico. Isso era uma coisa impossível que só existia em meus pensamentos.

Então foi ai que percebi.

Tudo o que eu sentia por ela era real, de amor platônico não tinha nada. Era verdade, eu criara, alimentara, e a tinha agora. Acho que não suportei o fato de tê-la somente na minha imaginação: o lugar onde ela sempre esteve tão bem, perfeitamente tão bem. Em que eu nunca iria perde. Meus olhos pesam, minha imaginação rodeia, fecho os olhos e imagino. Que droga era essa, que só conseguimos manter em nosso pensamento?!

Era ela mesma. Suzane: meu amor platônico. Que me acompanhou pelos meus pensamentos desde a infância. Que esteve nas páginas do meu livro, nas minhas palavras, nos meus sonhos, pelos cantos solitários, pelos ares da minha imaginação. Caminho, caminho, caminho e paro. Eu a encontrei.

Acordo. À boca com salivas secas, minha cabeça latejando e minha visão embaçada.

“Fico viajando durante horas, dias e noites, lutando contra meus pensamentos. Perco-me nos meus sonhos. Estou com uma forte dor de cabeça, um grande enjôo. Saio vomitando pelo chão que não existe, encosto-me na parede e permaneço estável. Olho para sua imagem que está no céu, e me sinto fraco. Meu medo era ter esse sentimento de agonia, e acabar sozinho. Agora meus pensamentos são vagos, não tenho vida, não tenho vontades. Mentiras vividas perfeitamente. Palavras suspiradas e lançadas ao vento. A coisa mais bonita foi imaginar seu corpo que se desintegrou nos segundos imaginado. Minha heroína romântica acabou, levou minhas idéias. Estou em silêncio. Carrego minha própria dor em momentos de desespero. Antes era alegre, leve, calmo... Perfeito. Nunca quis te imaginar, apenas te ter. Sonhos breves, longos e insuportáveis. Sinto frio, calor, medo, vergonha, felicidade, esperança, o tempo, sinto a falta... sinto a falta. Sinto a falta do seu corpo, da sua voz, de sonhar, do amor. Tenho preguiça, cansaço. Queria descansar em seus braços. Grande tédio, doce solidão. Poemas escritos, palavras desenhadas, teu corpo miragem. Bebidas que golpeiam a mente para você aparecer. Noites paradas, silenciosas, solitárias. Passos lentos, o som que me sustenta. Não sei se te perdi, se existisse, se era uma ilusão. Meu pensamento fraco, pobre psicodélico. Era o amor platônico que me abraçava, e me fazia viver intensamente a loucura de amar através dos sonhos. Da infância o sorriso eterno na lembrança. Agora sei que basta fechar os olhos e dormir, para te ter para sempre e te amar eternamente. Viver nos meus sonhos e morrer te imaginando.”

Suzane:

Um beijo e bons sonhos.



FIM

*Para Aryane Oliveira

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Sobre o amor platônico - Capítulo V

Caixa de Entrada
Assunto: (Sem Assunto)
De: Suzane de Souza (suzanesousa@email.com)
Enviada: segunda-feira, 11 de janeiro de 2010 02:45:50
Para: Emanuel Moraes (emanuelmoraes@email.com)

Querido Emanuel,
Sinto a sua falta. Está tarde da madrugada e não consigo dormir. Já se passou duas semanas desde o nosso primeiro encontro, e percebi que só você preenche uma parte de mim. Quero estar novamente em contato com o calor do seu corpo e ouvir suas palavras ao pé do meu ouvido. Espero te vê logo. Um beijo.

Suzane de Sousa
____

Li o email de Suzane logo pela manhã, após ter tomado café. Fiquei pensando se respondia ou se deixava para depois, assim que tivesse uma boa resposta. O problema é que eu também sentia falta dela, e por isso não sabia o que falar. Fiquei com isso em meus pensamentos o resto do dia e mal conseguia fazer minhas atividades na redação do jornal. Tentei comer alguma, mas só conseguir fumar uma carteira de cigarros e tomar três copos de vodka com gelo. Caralho! Aquilo tava me fazendo tão mal assim, que já estava começando a sentir tontura; será que era por causa da vodka? Cheguei em casa e liguei imediatamente o computador. Respondi o email de Suzane, dizendo para nos encontrarmos sexta-feira à noite, num barzinho que ficava no centro da cidade. Fui comer alguma coisa na cozinha e fiquei pensando nela; na sua pele macia, em seus cabelos cacheados, em seu cheiro, e na noite em que dormirmos juntos enquanto sentia sua vagina se contraindo no meu pênis.

Os dias se passaram rápido. Sair atrasado do jornal e peguei o primeiro ônibus que parou para mim. Estava um engarrafamento enorme e eu suando muito. Depois de um tempão, cheguei ao centro e caminhei até o barzinho. Ela estava sentada, com um cigarro entre os dedos e bebendo uma cerveja. Beijei sua mão e sentei de frente para ela.

– Pensei em você desde o momento em que li seu email – eu disse.

– Também pensei em você todos esses dias. Fiquei trancada em casa esse tempo todo, e percebi que só queria você.

– Sabe Suzane, também quero muito você. Mas está acontecendo tudo muito rápido. Bora deixar as coisas rolarem.

– Bora! Quero rolar com você à noite toda e me entregar totalmente – disse Suzane num tom sarcástico.

– Escute Suzane, não é bem assim. Eu estou um pouco confuso, porque não estou mais alimentando o amor platônico que sentia por você. Eu sempre te imaginei, sonhei com você. Agora que está acontecendo, quero ir com calma.

Suzane:

Mas que filho da puta! Que papo de amor platônico era aquele? Porque os homens sempre dão um ar de coitadinho assim, parece que já nascerão com todo esse sentimentalismo teatral. Se ele não queria continuar tendo nada comigo era só me dizer que acabava. Agora fica filosofando palavras para me enrolar.

Deixei-o ficar falando mais um pouco antes de lhe interromper:

– Que negocio é esse de amor platônico?! – Eu disse furiosa.

– É isso – disse Emanuel. – Te criei em meus pensamentos, te imaginava a todo o momento, e agora que te tenho tão perto, não quero te perde.

Mas que idiota. Ele não percebia que eu também o queria. Que o desejei desde o primeiro momento que lhe vi. Emanuel também era o amor platônico que eu criara nos meus dias solitários no meu quarto, ao som da voz suave de Adriana Calcanhotto, e de inúmeros livros que lia e poesias que escrevia. Pedi mais um copo de chopp para o garçom e olhei para os olhos de Emanuel.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Sobre o amor platônico - Capítulo IV

Sexo, palavra e sentimento: são coisas que nunca se encontram ao mesmo tempo. Num momento você tem uma, no outro tem a outra. É preciso ter certo tipo de jogo para manter os três em sintonia, para que nosso corpo seja entregue totalmente. Foi o que aconteceu. As três coisas se encontraram e o meu corpo se rendeu. Emanuel sobre mim no sofá, sussurrando palavras que eu sentia passar por todo o meu corpo, o movimento de seus lábios tocando ao meu, minha respiração ofegante, sua barba roçando meu rosto, seus braços me apertando, o leve tocar de sua mão no meio seio que fizeram minhas pernas se esticarem, e bater na mesinha no meio da sala que balançou e derrubou a cerveja sobre os livros. Sentia-me entregue para as vontades do meu corpo que acabara de entrar num ritual de troca de desejos, onde eu não tinha controle sobre os movimentos. Emanuel fazia-me caricias pelo rosto e soprava palavras que se perdiam no ar.

– Seu corpo é minha poesia – disse Emanuel. – Me faz ter desejos fortes de escrevê-las, de tocá-las. Quero sentir você como nos meus pensamentos, ouvir seus gritos de paixão para que eu covardemente lhe agrida de amor.

Não conseguia me conter diante das palavras de Emanuel. Cedi meu corpo a ele, num sofá, ao som de Pink Floyd, no momento em que carecia de amor: a palavra forte que causa dor e vontade de senti-la cada vez mais. Era uma entrega de corpos desconhecido em que o sexo fazia o amor platônico torna-se uma mentira.

@..@''@..@

Me desperto na cama de Emanuel totalmente nua, enrolada no lençol e um pouco sonolenta. Fico observando aquele quarto enquanto me despreguiço. Um lugar entre quatro paredes em que despejamos nossas impurezas não realizadas diante das pessoas. Sempre é assim: acordo em um lugar estranho, meu corpo pesa, a merda já estar feita, minha vontade realizada numa noite em que eu parecia está só, numa noite fria, na rua, no mundo. Emanuel aparece na porta, me da um bom dia e senta-se na cama passando seus dedos entre meus cabelos. Sorrio para ele e imagino o que havíamos feito durante a noite, foi tão rápido, nem deu tempo de conversarmos direito. Depois quando eu estivesse só, irei ficar me magoando pelos cantos de casa pensando na vadia que sou.

– Tenho uma coisa pra te mostrar – disse Emanuel.

O que seria? Emanuel parecia um pouco feliz. Levanto-me da cama, ainda nua e caminho com Emanuel pelo quarto até uma mesa onde estava o computador, com uns livros e uma pilha de papeis em volta. Havia mais livros jogados pelo chão. Ele pegou uma folha que estava dentro da gaveta da mesa e me entregou. “Escrevi isso pra você”, disse Emanuel, “eu sei que não nos conhecemos, mas já sonhei com você várias vezes”. Ele escrevera um poema para mim, enquanto eu caminhava em seus sonhos. Emanuel me abraçou por trás, estava só de cueca e eu nua. Li o poema enquanto ele me abraçava.

DEVANEIO

I
Meu corpo o mesmo.
Sua respiração ofegante.
Minha alma sumida,
Sua alma a minha.

Nos teus braços, nos teus seios
Minha imaginação se torna real.
O real de um mundo irreal.

E nesse mundo real,
Sua alma some.
Acordo com uma respiração ofegante
E o meu corpo já não é mais o mesmo.

II
Retomo o sono, retorno ao sonho.
Seus braços me acolhem, e descanso.
Sinto seu corpo e seus lábios suáveis tocarem ao meu.

Observo seu rosto e o roço.
Minhas viagens agora são em seus beijos,
Em um lindo ponto num canto aconchegante.
Não quero mais acordar.

Abraços confortáveis, salivas doces.
Quero permanecer estável em seu corpo.
Quero me contaminar até criar esporo.
Não quero mais acordar.

Sonho, beijos, corpos, vontades, palavras.
Meu corpo soa.
Nossos corpos em um sonho soam.
Beijos e palavras escorrem,
E as letras se desfazem nas vontades do meu sonho.

III
De longe, te vejo, ilusão.
Meus pensamentos são você,
Meus pensamentos acordados não existem.
Passa todas as noites por ele, por todos os sonhos.

Minha vontade é te ter, meu medo é te perde.
Vens e some, sua alma não existe.
Você é minha imaginação, seus beijos minha lágrima.
Perco-te sempre. Abandone-me.

Partes para o infinito e me deixe.
A calma, o silêncio, o vazio,
As dores que irei sentir são os amores por você.

Não te tenho, não te guardo, não tenho sonhos.
Quero viver acordado, para não lhe encontrar nunca mais.

sábado, 10 de julho de 2010

Sobre o amor platônico - Capítulo III

Suzane:

Dentro do táxi a caminho do apartamento de Emanuel, fiquei observando-o. Olhava para sua mão que estava sobre a boca, a barba que lhe cobria o rosto, o jeito que ele olhava pela janela do carro e via os prédios desfilarem diante do seu olhar, as luzes lhe atravessando o corpo, o vento forte que batia em seu rosto e faziam seus olhos lagrimarem. Eu estava ao seu lado, num silêncio. Ficava pensando em minhas loucuras, nas atitudes que tomava sem pensar. Um dia eu ia acabar me dando mal de tanta merda que fazia. Como poderia ter aceitado o convite de um estranho; quer dizer... Quase um estranho. Havia visto Emanuel duas vezes: na primeira o vi sentado na livraria, me senti encantada pelo charme dele com os livros ao lado, na segunda vez, ao perceber ele, falei para minha amiga gritar meu nome e me chamar para sairmos de onde estávamos. Mas daquela vez eu não havia feito nada. Estava sentada no trapiche porque estava cheia de tudo e de todos, e queria ficar um tempo sozinha, quando ele apareceu de repente em minha frente.

O táxi parou em frete ao prédio de Emanuel. Descemos do carro e fomos até ao elevador. Subimos em silêncio disfarçando nossos olhares para os cantos. Já dentro do apartamento, Emanuel colocou as chaves sobre a mesa e disse para me sentir a vontade. Caminhei pela sala e me sentei no sofá. “Que beber alguma coisa?”, gritou Emanuel de dentro da cozinha. “Depende. O que tem para beber?”, eu disse. “Tenho refrigerante, cerveja e meia garrafa de uísque”, responde Emanuel. “Quero cerveja”, complementei. Emanuel voltou com duas garrafas de cerveja e me deu uma. Fingir que estava lendo um livro que havia pegado na mesinha no meio da sala, ele acendeu um cigarro e foi até o som. Fiquei olhando para seus ombros e o modo como ele bebia a cerveja. Ele colocou um pouco de Pink Floyd para ficar tocando, voltou e sentou-se ao meu lado.

– E então, – disse Emanuel. – Quem é você?

Parei de dar atenção para o livro e olhei para Emanuel. Tentei segurar minha paixão reprimida que sentia por ele.

– Sou uma ilusão – eu disse. – A pior de todas as ilusões. – silêncio no ambiente.

– Não é verdade – respondeu Emanuel.

– Porque acha isso? – perguntei.

– Bom, – disse Emanuel. – você aqui na minha frente, diante dos meus olhos, é algo muito mais do que uma ilusão. Você é simplesmente: todos os meus sonhos, todas as minhas noites solitárias, as minhas dores, as minhas paixões que se perdem pelos ares.

Naquele instante percebi que eu não era a única que sofria desse mal. Ele me dissera todos seus sentimentos, dores e perdas. Ouvi cada palavra como se fosse uma linda canção, respirei fundo, lágrimas ficaram presas nos meus olhos e minha garganta ficou roca. Passei a desejá-lo ali mesmo. Soprei suavemente pela minha boca o que havia guardado em meus pensamentos:

– Não é assim! Essas palavras são minhas. Eu que tenho que dizer isso.

– Então diz – disse Emanuel.

Fiquei calada por uns sete segundos. Minha vida toda se passou em sete segundos. Tudo estava me sufocando: o momento, a verdade, os segundos. Tomei um gole da cerveja e apertei a garrafa em minhas mãos.

– Você. – eu disse. – É todas as letras que eu escrevia nos dias solitários, todas as lágrimas que caiam dos meus olhos antes de dormir, todas as rosas que nunca recebi, e todas as canções que me faziam sorrir.

Pronto! Falei. Avancei na direção do corpo de Emanuel e abracei-o. Ele me apertou em seus braços e me engolia em seus beijos.

Sobre o amor platônico - Capítulo II

Há vinte anos, quando tinha nove anos, ficava em frente à televisão assistindo ao desenho do Snoopy. Amava o desenho, meu personagem favorito da turma era o Chalier Brown: um garoto azarento e melancólico que vivia um amor platônico. Desde aquela idade eu já sabia o que era ser frustrado por uma garota. Sempre me apaixonara por uma amiga da escola e ficava pensando nela antes de dormir. De lá pra cá, me entreguei à solidão. Tive alguns relacionamentos que sempre acabavam em amizades. Mas agora ali, parado diante de Suzane, queria acabar de vez com a dor que alimentava o meu coração, a minha mente e os meus dias.

Havia conhecido Suzane numa livraria. Eu estava sentado perto de uma montanha de livros, lendo. Procurava algum livro que me interessasse, quando Suzane se aproximou para me pedir uma informação. Ela imaginava que eu era funcionário da loja:

– Desculpe moço, queria saber onde posso pagar isso – disse Suzane segurando um livro na mão. – Poderia me ajudar?

Olhei para ela, para seus cabelos cacheados, para seus olhos castanhos claro, para o corpo todo e para o livro que estava segurando. Não conseguia ver o titulo. Só conseguir notar a fonte da letra e a cor do livro. Era um livro de capa verde com letras preta na frente que formava o nome do livro.

– Você vai me ajudar ou não? – disse Suzane.

– Bom, é logo atrás de você, onde está aquela moça de camisa vermelha – eu disse.

– Obrigada!

Suzane caminhou até o caixa enquanto eu ficava observando-a. Pagou o livro, recebeu uma sacola branca e saiu da livraria, saiu pela rua, saiu do meu olhar e se perdeu na multidão. Espontaneamente, fui ao caixa perguntar para a moça qual tinha sido o livro que à última cliente havia comprado: “um romance do escritor Rubem Fonseca”, respondeu à moça do caixa. “Era esse mesmo que eu estava procurando”, eu disse, “Vou levar um!” A moça foi até a estante pegar o livro e voltou ao caixa, passou na maquina do código de barra e colocou numa sacola. Paguei o livro, sair da livraria e caminhei até meu prédio que ficava próximo dali. Era uns dez minutos caminhado, andei tão rápido que cheguei em menos de cinco minutos. Entrei no quarto, e ali permaneci às próximas vinte horas lendo o livro acompanhado de uma latinha de Coca-Cola que degustava aos pouco. Fiquei pensando em Suzane por uns dias até ela sumir aos pouco de meus pensamentos.

Havia se passado duas semanas desde a última vez que pensei em Suzane. Fui junto com um amigo meu para um show de uma banda de rock me distrair um pouco. Havia pouca gente no local e ficamos escorados numa parede próxima ao bar que dava para prestigiar a banda de longe. Eu estava olhando os solinhos psicodélicos que o guitarrista fazia na guitarra quando vi um grupo de amigas dançando feitas loucas na frente do palco. Entre elas estava Suzane, balançando seus cabelos cacheados, abraçando as amigas e pirando ao som frenético da banda. Era a segunda vez que via Suzane, e foi nessa vez que descobri o nome dela. Eu tinha me aproximado do palco, ela estava bem perto com suas amigas, fiquei disfarçando o olhar até que uma das amigas gritou para Suzane: “Suzane, vamos sair daqui!” Ouvi a beleza de seu nome e fiquei paralisado, tenso, sem palavras ao descobrir o nome dela. Fiquei do mesmo jeito que me encontrara agora, naquela noite fria diante de Suzane.

Com o vento tocando-me o rosto, caminhei na direção de Suzane. Estava decidido a conhecê-la naquela noite, e vê o que aconteceria depois – seria um desastre.

– Olá – eu disse com o cigarro entre os lábios. – Posso sentar aqui?

– Não falo com estranhos – respondeu Suzane.

A situação se manteve tensa por uns quinze segundos até eu quebrar o silêncio.

– Bom, à noite estar fria... Posso lhe oferecer um cigarro? Que dizer, se você fumar é claro...

– Escuta aqui cara! – interrompeu Suzane. – Se você pensa que vai conseguir alguma coisa com essa conversinha, está muito enganado. Em vez de ficar nesse papo furado, porque não toma uma atitude e me convida logo para um lugar.

Foi assim: curto e claro. Fiquei pasmo com que acabei de ouvir. Olhei nos olhos de Suzane, e sentir uma atração cada vez maior me subir o corpo. A sensação era forte. Dias de amores platônico resumido em um único momento. Não pensei duas vezes antes de fazer a pergunta:

– Que ir para meu apartamento e beber alguma coisa?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sobre o amor platônico - Capítulo I

"Meu segundo romance. Decidi postar no blog dessa vez. Foi inspirado nos meus amores platônicos (ou no meu amor platônico). Para a menina que me deixava besta só de olha-lá, e sonhando acordado em vê-la sorrindo. As palavras escritas foram feitas através de um sentimento que tive e se perdeu pelo vento. Agora permaneço parado a procura de outro sonho que ocupe a minha imaginação e alimente os meus dias.”
Boa leitura

Bernard Freire
______

Emanuel:


Exatamente às onze horas e quarenta e sete minutos de uma sexta-feira, entrei num bar que ficava no centro da cidade e pedi um uísque duplo com gelo para o garçom. Fiquei observando o ambiente do bar que me parecia confortável: mesas com cadeiras estilo década de trinta, nas paredes, quadros de cantores famosos de jazz e caricaturas dos cantores da MPB; as luzes num tom de amarelo escurecido e a música clássica que chiava numa caixa de som no canto do bar, me faziam-me se sentir bem. O garçom volta com um copo de uísque e põe sobre o balcão; peguei o copo e degustei um gole daquele uísque que me golpeou a cabeça. Estava com um jeito calmo e pensativo naquele bar encantador esquecido pelo mundo. Passei os primeiros trinta minutos sentado com os cotovelos sobre o balcão pensando em minha fudida vida solitária; na redação do jornal em que trabalhava, em meus romances escritos que não me rendiam nada, nas mulheres que nunca se interessavam por mim, e em Suzane: um amor platônico que criei.

Aos vinte e nove anos de idade, eu era mais um ser humano que caminhava pelas terras desse imenso mundo. Jornalista, escritor medíocre, autor de dois romances sem sucesso e acompanhado de uma solidão insistente, percebi que meus dias são os mesmo e que não havia mais nada de interessante na minha vida; a não ser aquele copo de uísque que se desintegrava na minha frente. Deixei um dinheiro sobre o balcão, me levantei e fui ao banheiro. Sair, e caminhei na direção da porta de saída. Ao atravessar a porta me esbarrei sem querer numa moça de cabelos ruivos que usava um vestido preto e calçava um tênis All Star branco, ela me olhou furiosa e me chamou de idiota antes de entrar no bar. Não liguei, pois já estava acostumado com a ignorância do sexo oposto, e seguir caminhado pelas ruas vazias daquela noite fria.

Sair caminhando em direção ao nada. Respirava o ar frio que penetra em meus pulmões e sentia-me leve. Como uma noite daquela poderia está tão calada. Parecia que eu era a única pessoa no mundo. Bem... só parecia. Nas calçadas das lojas por onde passava, havia mendigos dormindo tranquilamente. Imaginei-me dormindo ali, junto deles, naquele mármore gelado embrulhado por jornais, parecia tão confortável. A alguns quarteirões dali, passei por um posto de gasolina e entrei na loja de conveniência. Olhei para a câmera de segurança e o adesivo colado ao lado com um desenho idiota de uma carinha sorrindo e a frase: “sorria você estar sendo filmado”. Fui até a geladeira, peguei uma garrafa de cerveja e fui ao caixa. Encarei o atendente: um rapaz magro com o rosto cheio de espinhas que usava um boné com o nome do posto.

– Dois e noventa, senhor – disse o atendente.

Puxei a carteira do bolso e tirei uma nota de dez reais.

– Deseja mais alguma coisa?

– Uma carteira de cigarros – respondi.

Peguei o troco, a carteira de cigarros e a cerveja, e sair. Mas antes, dei mais uma olhada para a câmera de segurança.

Novamente andando pelas ruas vazias, ouvia o som do vento batendo nas folhas, olhava o céu estrelado, os casarões antigos, os passos que dava entre as linhas da calçada. Sentia um pouco de medo ao caminhar sozinho. De longe, vi um pequeno trapiche que ficava de frente para um imenso mar. Caminhei na direção do trapiche e cheguei perto de uma escadinha. Deixei a garrafa de cerveja vazia encostada no canto e andei sobre a tábua macia daquela ponte. Chegando ao final do trapiche, me escorei num tronco de árvore que parecia ser uma perna-manca, e senti o vento tocar-me o rosto. Puxei um cigarro do bolso e acendi. Admirando o momento, olhava a beleza em minha volta até meu olhar para numa moça sentada no canto. Ela estava com os braços apertados em volta dela, se aquecendo do frio daquela noite. Fiquei paralisado, olhando-a, pois não era apenas uma moça sozinha numa noite fria; era Suzane, meu amor platônico.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dama da noite

"Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada."


Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ao mestre José Saramago


"As palavras que me ganharam. O escritor que silenciou parte da minha imaginação"

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sempre termina assim

Depois de tentar suicídio três vezes com uma faquinha de manteiga e ter fracassado, decide afogar suas mágoas numa festinha que lhe faça parecer diferente entre tantas pessoas iguais. Blá blá blá pra cá, blá blá blá pra lá, uns copos de tequila, uísque, chopp e um barulho infernal de guitarra distorcida. O dia começa a amanhecer, chega em casa e vai para a cama dormir. Acorda tarde, deprimido com umas olheiras e a boca seca. Água, Coca-Cola e um Melhoral para um corpo preguiçoso. Escuta um pouco de Sigur Rós e dormi novamente. Acorda tarde da noite, com o corpo cansado e sem saco para fazer alguma coisa. Percebe a coincidência. Sempre termina assim... Sozinho. Trancado em um quarto escuro, exausto de um tempo não vivido perfeitamente e olhando para as paredes com um ar de solidão. Umas tentativas de poesias escritas no papel, na parede, e na mão. Suas idéias são poucas e seu pensamento vago. Procura alguma coisa interessante para fazer: Orkut, ninguém no MSN, conversas bestas no bate papo da UOL, e vídeos que assiste sem interesse no youtube. Ah! Uma pessoa simpática no bate papo inicia uma conversa:
– Olá, tecla de onde? – diz a pessoa desconhecida com o apelido de “carinhosa”.
– De algum lugar (haha) – responde o entediado.
Os dois saem da sala e perdem a chance de aprofundarem uma companhia pelo resto da noite.
Desliga o computador e vai para a cozinha. Come alguma coisa nutritiva para que seu estômago fique farto e pare de roncar. Volta para o quarto e fica tocando um pouco de violão: “plen, plen, plen,” faz o som das cordas do violão. Liga o computador novamente e tenta escrever alguma coisa para postar no blog (que dificilmente alguém ira ler com tanto entusiasmo). Um conto, uma poesia, palavras de conforto, trecho de música, frases de algum famoso? Ah! Qualquer coisa, é só para atualizar. O entediado vai consulta suas influências: Rubem Fonseca, Clarice Lispector, Gabriel Garcia Marquez, Caio Fernando, Charles Bukowsk... Nenhum deles. Acaba postando um parágrafo de oito linhas, com umas palavras de felicidade. “Felicidade! Felicidade! Fe-li-ci-da-de!”. Caralho! Desista. Hoje não foi um bom dia. Cansou e foi dormir. E em seus sonhos se passaram cenas absurdas: “Estava atravessando o sinal, uma moça de cabelos cacheados lhe parou e lhe deu um beijo. Um cachorro de três patas late para um pássaro que está no fio do poste. Uma senhora faz sinal para um taxi, e um garotinho corre atrás do papagaio”.
– Ei moço, acorde. Acho que já está bom de bebida para você. – Disse o garçom.
– Ãh? Como?
– Você acabou dormindo aí no balcão. Sempre termina assim para os sozinhos que escolhem essa companhia. Afinal, você leu a terceira linha do texto: “[...] Blá blá blá pra cá, blá blá blá pra lá, uns copos de tequila, uísque, chopp [...]”.

*Resultado de um dia deprimente, após as festinhas solitárias na noite.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O indivíduo que conversou com você sobre fracasso

Ilusão, medo, palavras, insônia, vontades, romances, delírios, dores, mentiras, fracasso. Uma ilusão que toma conta de sua mente, fazendo seus pensamentos se renderem ao medo de sua personalidade. Você calado num quarto escuro escutando música clássica, sentido o som frenético dos acordes e mais nada. Porque seu corpo senti a solidão? Palavras são surradas em seu ouvido, sua imaginação surta com cada letra, minha boca se movimenta sem que eu faça esforços, meus olhares se perdem na escuridão. As sombras nas paredes são o medo que eu tenho de minha própria personalidade, logo irei me recompor de um sentimento que já deveria estar bem longe. Meu sono se perdeu, a insônia me acompanha nessa hora: hora de escrever, de ouvir, de sussurrar, de imaginar o que se perde na escuridão. Era só mais um dia, não queria sentir nada, não queria me ouvir. Rastejar pelo chão desse quarto, me deitar na cama e adormecer. Meu corpo precisa de descanso, minhas ilusões enrolam palavras, minha boca as sussurram pelos ares fechado desse quarto. Onde estava a sombra, pelos ares, pela parede, chão, palavras, medo, insônia, ilusão...

– Cadê você que não existe.

– [...]

– Fala. Faça-me companhia, se perde junto comigo.

– [...]

– O medo. É isso que você tem? Cadê seus amores?

– [...]

Meu corpo percorre pelas paredes, sinto você. Para onde vais? E o nosso romance? Em meus braços você já não existe. Forte, forte, forte... Ilusão, medo, vontade, repetição... delírios. Quem é agora, o vento. O vento que percorre por todos os lugares, por todas as partes desse mundo. Infinitos ares de solidão, me perseguindo pelas sombras, pelo som, pelo delírio. Voa longe e trás mais substâncias para alimentar meus dias de dores. Venha, venha, se deite, descanse, a noite é longa, silenciosa, solitária e passageira. Vozes que não saem dos pensamentos, é ela, a voz do medo, da vergonha.

Um individuo, um quarto escuro, um som, livros jogados pelo chão, as sombras, as palavras infinitas e a mentira. Você se enjoa de ler isso, o tédio vem e te acompanha pelo resto da noite. Você tem escolhas? Usa tudo para imaginar seu corpo com os dos outros.

E ai? Silêncio.

Pelos cem anos de solidão, poemas, paixões do GH, artes, Beatles, cults, mecânicas laranjas, deixa de ser transfigurado, figurado, quem disso isso? Você, só, mudo, droga! Parece que a porta está aberta. Só parece, a janela não existe mesmo. Ninguém ouve, esta tudo bem, a merda se torna bonita, e ficar escrevendo entedia.

Não tente entender, você já se tornou um fracasso.

terça-feira, 18 de maio de 2010

__________________IMAGINE

__________________A palavra que você quiser

_Se concentrando no meio do palco
______________________________________O desejo do corpo através do pensamento
_____________________________________A música que ninguém ouviu
_Pessoas com o mesmo surto
___________________________________________Querer ser totalmente doido
_____________Você escrevendo sem nenhum movimento
__________________________________________O que anda nas cabeças anda nas bocas
_________Bando de nuvens que passam ligeiras
_______________________Uma enciclopédia do utópico
Cores de Almodóvar

_______________________Menos peixinhos a nadar no mar
Pessoas Mundo Multidão

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sobre as letras

Palavras, frases, letras. Tudo o que sentimos se forma em segundos numa folha em branco. E nossos sentimentos ficam escritos para uma eternidade. Não fuja da beleza dessas letras. Se entregue, abrace-a. Sinta o leve descanso das palavras. Se deixe levar pela eternidade das frases. Busque abrigo na poesia, no romance, no amor. E seja um verdadeiro ser humano que se contaminou por elas, se jogou num profundo abismo e caiu sobre as letras.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A solidão que domina o espaço onde meu corpo se senti cada vez mais ausente. Onde minha mente gira e meus pensamentos escapam. Onde minha respiração recolhe o ar vazio de um espaço calado. Onde o som deixa palavras sussurrarem em meus ouvidos. Isso deixa letras se formarem em meus olhos e serem sopradas suavemente pela minha boca.

As palavras escapam, um vazio toma conta. Logo elas voltam e o vazio é ocupado. Os dias são longos, as horas não passam e minha angústia parece uma eternidade.

Sinto o medo, a falta, o silêncio... o vazio. Minha imaginação está se ocupando de pensamentos imperfeitos. Meu corpo muda de camadas, observo cada fio de cabelo crescer em qualquer parte. Me sinto fraco, cada vez mais ausente de um imenso mundo onde todos caminham. Preciso de contatos, cantatos... contatos.


*Gostaria de agradecer as poucas pessoas que lêem meu blog. Ultimamente meus posts estão ficando sem nexo e redundantes. Talvez seja porque nossas imaginações sejam diferentes ou o cansaço esteja me ocupando nesses dias. Mas queria que sentisse cada palavra, cada frase. Talvez você possa se identificar.

Até breve.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Continuo caminhando em terras perigosas, os dias parecem incontroláveis. Meu peito pesa, meu coração pesa. Tenho sentimentos de apertos e salivas secas que fazem minha boca ficar cada vez mais úmida. Meus olhos perseguem os movimentos, minha respiração senti o momento. A cada gota que cai do céu, percebo que esse tempo há de cair para o passado.

Meus pensamentos estão se perdendo, minha solidão já não me satisfaz. Me perco, me encontro. E pareço estar longe ou cada vez mais perto de um futuro...


*Partes da imaginação

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Devaneio

Meu corpo o mesmo.
Sua respiração ofegante.
Minha alma sumida,
Sua alma a minha.

Nos teus braços, nos teus seios
Minha imaginação se torna real.
O real de um mundo irreal.

E nesse mundo real,
Sua alma some.
Acordo com uma respiração ofegante
E o meu corpo já não é mais o mesmo.

Bernard Freire

*Delírios das leituras noturnas.