segunda-feira, 25 de abril de 2011

Corpos

No começo eram dois. Mas que na verdade tinham o mesmo corpo. Ele, o criador frustrado. Ela, a obra imperfeita. Sabiam combinar. Um formava o outro. Então, no começo era um.

PAM! Track.

Quando Heloisa ouviu o barulho da porta bater, sabia que Eduardo nunca mais voltaria. Sabia que sua dor e angustia se apodreceriam naquele espaço vazio, onde seu corpo não teria mais vida com o corpo que saiu. Era seco e silencioso o seu choro. Os braços apertavam suas pernas e o seu corpo permanecia imóvel naquele sofá. O barulho do tic-tac do relógio na parede lhe atravessava o corpo. Nada lhe incomodava, pois sua concentração estava no pensamento e na respiração que lhe acalmava o corpo.

Eduardo com o corpo agitado e a respiração forte, andava pela rua tentando esquecer seu pensamento. Seus passos eram largos e pesados. Atravessava as ruas rapidamente num processo automático, ligado pela raiva que sentia. Seu foco a frente lhe mostrava o caminho para seguir. Mas não sabia ao certo para onde. FOoOoM! O barulho da caminhonete lhe atravessou o corpo junto com o vento que lhe foi lançado. Quase perdeu a vida. Quase. Se não fosse o reflexo de sua audição que parecia não fazer parte do corpo. Sentiu-se estourando por dentro.

Do outro lado da rua, os bares laçavam um brilho aos olhos das pessoas que passavam dentro dos transportes públicos. Na calçada, mesas rodeadas de corpos que se perdiam nas vozes perdidas no ar. A noite proporcionava uma sensação boa aos corpos. Todos sorriam conforme a expressão do outro. Talvez aqueles não fossem eles. Seus egos voltariam na volta para suas casas.

Heloisa levantou-se, olhou para os livros na estante e para os objetos que lhe remetiam o passado. Seus pensamentos estavam querendo gritar. Prostrou-se a frente do espelho ao lado da estante e começou a se observar. Um olhar que lhe traziam as lembranças do olhar que lhe olhava. Heloisa olhando para o espelho começou a se despir. Tirou a blusa. A calça. O sutiã. A calcinha, e olhou para seu corpo nu. Ficou-se ofegando. Amassando a barriga com as mãos. Passou a ponta dos dedos pelo resto do corpo. Sua pele era macia. Delicada. Doce. Sentiu vontade de se penetra ao fundo. Sentia as lembranças do passado. Sentia falta do corpo que saiu. Sentia-se única.

Eduardo entrou no botequim, sentou-se no balcão. Pediu uma vodca com gelo. Acedeu um cigarro e deu uma profunda tragada. Seu corpo ainda estava estourando por dentro. Passou os dedos entre os cabelos e apoiou o cotovelo no balcão com a mão na cabeça. Pensava no corpo. Nas lembranças do corpo que não saiu. Queria chorar para vê se o corpo saia. Mas estava seco. Percebeu que o ar que entrava em si, voltava com a fumaça absolvida. Sua sensação era a de um relaxamento profundo. Sonho. Engolia saliva junto com a vodca gelada. Acendeu outro cigarro. A cada tragada, o corpo saia lentamente de dentro do seu.Sentia as lembranças do passado. Sentia falta do corpo que ficou. Sentiu-se único.

No começo era um. Mas as imperfeições do outro, não deixavam se fundirem. Ele, perfeccionista demais. Ela, autêntica demais. Então, no começo eram dois.

*Bom, gostaria de me desculpar-me com os leitores do blog. Fazia tempo que não escrevia, em. Isso acabava deixando a presença dos leitores menos frequente por aqui. O motivo é que... Não há motivos. Escrevemos quando sentimos. Quando queremos, talvez. Ou então, passar os quatros dias de um feriado trancado em seu quarto podem fazer os sentimentos gritarem: “Ei, estamos aqui!”. Criei esse texto com referências das aulas de teatro. Todos os dias estudando corpo, respiração, olhar, sentimentos, pode lhes rederem um conto. O bom é que voltei a escrever. Estava precisando.