domingo, 11 de setembro de 2011

Anne

Dez anos depois volto a pensar em Anne. Tenho pensado bastante nela esses dias desde que vi as notícias da televisão relembrar o atentado de onze de setembro, o que me fez voltar ao passado. Fico me perguntado se ela está viva ou morta, se casou, se continua linda encantando outros homens ou se encontrou o seu destino como sempre dizia. Eu realmente a amava. Sei que seguimos caminhos diferentes agora, mas só de relembrar o que aconteceu naquela madrugada, sinto que ainda há algo perturbador dentro de mim. O que parecia ser uma ficção acabou se tornando um verdadeiro fato histórico.

Eram três e vinte sete da madrugada quando Anne atravessou meus pensamentos e deitou na cama junto comigo. Acordei com seu cheiro invadindo minha respiração que imobilizava todos meus sentidos. Um cheiro doce de rosas do campo. Ela passava seu fino rosto no meu, colava seus lábios nos meus olhos e escorregava sua delicada mão sobre minha barba. Perdi totalmente o controle para sua sedução.

– Como você conseguiu entrar aqui? – perguntei.

– Pedi para o porteiro, ele me reconheceu.

– Porque as pessoas ainda acreditam na beleza humana. Você poderia ser uma bela assassina de um filme noir.

– Não tenho tanta sorte de contracenar num papel desses.

– E porque veio até aqui. Não disse que não queria mais me vê.

– Disse, mas senti sua falta. Abrace-me bem forte.

– Estamos cometendo o erro que não queríamos. Devemos nos afastar.

– Sei disso, por isso estou aqui.

Anne foi minha primeira mulher na fase adulta, a que fez com que eu quebrasse minha promessa de quando criança. Havia prometido a mim mesmo que nunca iria ter um relacionamento. Iria me apaixonar pelas lindas mulheres sem fazê-las sofrer. Que promessa ridícula. Acho que devido ao amadurecimento vamos perdendo as coisas que nos comprometemos no passado. Só conseguir perceber isso agora, dez anos depois. Aquela madrugada de onze de setembro parecia não ter existido em minha vida até o amanhecer, quando atendi ao telefone. Anne se despediu de mim e me fez acreditar na realidade. Liguei a televisão e assistir o avião se chocar no World Trade Center, o momento que me certifiquei que tudo era verdade.