sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Solilóquios


Amar a bombordo, amar a esquiva. Amar os traços, amar ao vento.

Olhar a proa, olhar para dentro. Olhar o destino, olhar o sentimento.

Respirar a tempestade, respirar o silencio. Respirar o oco, respirar a água.

Sentir o desejo, sentir a esperança. Sentir o espinho, sentir a despedida.

Chorar o triste, chorar a felicidade. Chorar a raiva, chorar o sorriso.

Crescer ao tempo, crescer ao cair. Crescer lutando, crescer voltando.

Tocar olhando, tocar lembrando. Tocar para não soltar, tocar... tocar.

Voar a cima do nível (ou no seu nível), voar alto. Viver simples, viver com a vida.

domingo, 23 de dezembro de 2012

De dentro

Olho com o som dos movimentos do tempo, olho com o toque e o sentir do respirar. Observo o mundo se expandir dentro de mim e criar outro conceito para as coisas da vida. Recrio formas de andar e os passos se divertem com a coreografia do deslizar no espaço que parece ser uma linha estreita imensa. Os objetos se transformam em artes para serem emoldurados e tornarem-se áureos. Os sorrisos se misturam com as bolinhas de sabão e se pedem com um pequeno estouro no ar. A dança dos fios lisos, leves, são os mesmos que as dos cachos. Eles dançam ao ritmo do batuque tornando-se único. O abraço se retrai no olhar, sentimentos são passados como raio magnético, a mensagem é levada a bateria cardíaca que pulsa querendo sair pela boca. São palavras presas escritas pelo corpo. As letras surgem como alma, e a pele recebe esse contato com o outro num desenho transparente.

próximo também lembrar coelho luneta farol saudades navio manhã moldura tamborete vindas saber pouco pele amor não motivo impulso passagem estrelas música fotografia palavras vasto oposto discurso grão viagem mar garrafa frenético grama arte vela movimento sorriso substituir férias esquecimento pano liberdade chuva barulho palco contato

No movimento da água a pintura se desfaz dando cor a passagem da correnteza. As letras somem levando o desapego restante de dentro.  O olhar se perde na nuvem de pássaros azuis que surgem do mar e giram no céu laranja-cinza, dando cor a um novo fundo. Sinos dobram como risco. Poesias escritas ao vento indicam o caminho oposto da linha estreita. A força o conduz com chutes pesados, a pele protegida por pétalas brancas o lava. O olhar de dentro senti o mundo criado, a vida não tem tempo, a vida feliz é a linha embolada na palma da mão. O resto é escrito numa folha de papel amassada e colocado dentro de uma garrafa para o mar levar. Agora a tela é livre para ser pintada nas cores do silêncio. 

sábado, 8 de dezembro de 2012

De lá pra cá e a idade do tempo de hoje

Naquela tarde chuvosa tudo estava calmo, menos o céu. O vento trazia um sono preguiçoso e como de costume, Alberto se embalava na rede e ficava ali até o anoitecer. Seu corpo meio preguiçoso atrofiou-se. Criou esse costume de descansar ao chegar à velhice e não o trocava por nada. Muitos não sabem, mas quando atingimos a idade dos 80, nosso corpo pede por descanso. A paciência pelas coisas, o entendimento em aceitar as novidades, a readaptação com a contemporaneidade, a juventude precoce em se adaptar com o meio, etc. Alberto tinha 76, e já estava treinando para quando completasse 80. Puxava um ronco baixinho que pouco se ouvia por causa do barulho da chuva, parecia que aquelas gotas caiam como pedrinhas na tela.  Raimunda, sua esposa, o olhava descansar assim como se vê os ponteiros de um relógio girar. Era hora de preparar o café. Se levantou da cadeira com uma leveza que deixava a velhice morrendo de inveja. Aceitava tudo que era novo, se sentia bem e ficava feliz em descobrir um novo olhar para as coisas do mundo. Reconstruía seu modo de vida com os passos da realidade atual. Tinha chegado aos 70 com uma energia de 30. Gostava de estar sempre na atividade, cozinhava, bordava, corria pela manhã, escrevia, cuidava de suas plantas e ria com as piadas do facebook. Sempre mantinha mente e corpo trabalhando, assim continuava com sua autoestima. Seguiu até a cozinha em busca de expectativa para lhe manter ativa e tentar reanimar Alberto. Deu um leve sorriso sarcástico e continuou a admirar a vida.